Um coletivo de mulheres e a chance de gritar angústias

Foto de acervo do coletivo Mulherio Urbano.

Começou com a minha ida para Porto Alegre no início de 2019. Passei na pós graduação em Antropologia Social na UFRGS e a partir daí grandes mudanças se iniciaram. Além de uma mudança geográfica muito drástica, temos a mudança radical de clima, afinal o clima de Belém é bem diverso do apresentado em Porto Alegre e me adaptar ao frio que atinge parte do ano foi umas das primeiras coisas que tive que trabalhar para me sentir bem.

Nunca tive problema com o sotaque, os costumes e tudo que envolve uma cultura diferente da que você está acostumada a conviver. Amo viajar, sou uma mulher com 34 anos que teve a oportunidade, por vários motivos pessoais, de morar para além da minha terra natal que é o Rio de Janeiro. A minha infância passei lá, meus amigos de escola e vizinhos com quem brincava são muito presentes nas minhas lembranças. Fui uma criança que brincou bastante, seja com os vizinhos (principalmente Renatinha), seja sozinha. Filha única e com uma criatividade aguçada, não me sentia só mesmo estando sozinha. Uma criança feliz!

Com mais ou menos nove, dez anos (idade confusa na minha lembrança, preciso investigar meus boletins escolares para saber melhor) me mudei para Belém, cidade em que moravam meus avós maternos, tios e primos. Moramos dois anos seguidos e na sequência nos mudamos para Fortaleza, terra do meu pai. Um ano se passou, as coisas não saíram tão bem como imaginávamos e voltamos para Belém, onde moramos até hoje, atualmente em Ananindeua – região metropolitana da Grande Belém.

Enfim, deslocamento não é o problema, lidar com o diferente não é problema. Viajei por outras cidades e o contato com novas culturas é muito maravilhoso.

Mas Porto Alegre me exigiu mais que uma mente aberta para o diferente, me exigiu força, coragem, uma mente blindada. Enquanto mulher negra que passou/passa pelo processo do descortinamento do olhar para identificar o racismo e que hoje consegue perceber a sutileza que muitas vezes o racismo apresenta, devo dizer que foi desgastante.

Não estou afirmando que nas cidades que vivi não exista racismo, ele está em todo canto e de diferentes formas. Mas me arrisco a dizer que existem lugares que se sentem à vontade para destilar o racismo da maneira mais cruel e escrachada. Passei por situações inacreditáveis do tipo: andar pela rua que morava, passar por três jovens e um deles imitar macaco, fazendo barulhos e batendo no peito; já deixei de ser atendida por uma feirante no Parque Farroupilha, ela simplesmente me ignorou e saiu da barraca; na minha varanda amanheci com uma casca de banana jogada pelo vizinho de cima; fui olhada de várias maneiras perversas sem que houvesse nenhum motivo plausível para isso. São inúmeras as histórias que eu poderia contar nesses dois anos que passei em Porto Alegre, porém essa narrativa é só a introdução para o que eu realmente quero dizer.

Não estou dizendo com esse texto que a cidade se resume a racismo e que os meus dias lá foram totais de sofrimento. Sofri muito por vários motivos, mas a cidade também me proporcionou momentos felizes, agradáveis e de muito crescimento. Lá encontrei um movimento negro forte e resistente, capaz de reunir mulheres incríveis. Aprendi muito e me senti amada! Encontrei pessoas aliadas também e que por mais que esta não seja uma luta delas, elas mostravam empatia.

O cúmulo foi passar as eleições lá e receber a notícia de que o presidente seria este que está no poder. Chorei e me desesperei, deixei de usar até o meu tênis vermelho por medo. Senti muito medo! Aos poucos, mesmo sentindo medo, resolvi reagir da maneira como eu sei me comunicar, através da ilustração, da arte.

A vontade de intervir nas ruas de Porto Alegre, surgiu com a raiva após a eleição. Falei com Leli, uma amiga que fiz no doutorado, é formada em arte e pesquisa intervenções artísticas feitas por mulheres. Ela topou na hora e aos poucos, começamos a nos organizar. Leli participa de um coletivo de mulheres fotógrafas, o Nítida, e ao comentar a ideia com uma das integrantes, esta acabou entrando para o plano. Já éramos três e o nome surgiu com o passar dos dias, após nossas conversas: Mulherio Urbano. A proposta do coletivo é intervir artisticamente através de lambes e adesivos nas ruas, abordando temáticas que nos provocam todos os dias como mulheres. Começou em Porto Alegre, mas já tivemos colagens em Salvador, Manaus e as nossas artes foram exibidas em projeção na cidade de Belém. Bom, e na internet, circula em tudo que é lugar.

A minha história em coletivos começou em 2014 com as Freedas Crew e eu acredito muito na força que mulheres em conjunto têm. Força de comunicação e transformação. As Freedas hoje são mulheres (e uma pessoa trans) que incentivam outras mulheres sem precisar falar sobre isso, só em pintar nas ruas já é o suficiente. Mostrar que podemos fazer qualquer coisa é a mensagem que fica e estimula outras.

O Mulherio Urbano surgiu num momento conturbado, politicamente falando, mas para mim enquanto pessoa apareceu para escoar toda a raiva e a angústia que eu sentia e não podia gritar. Posso dizer que cada lambe que fiz para o coletivo é um grito de revolta e de existência. Sendo assim, a primeira ilustração que fiz para o coletivo foi esta:

Assim como o racismo me confrontava todos os dias, eu quis fazer a primeira ilustração confrontando essas pessoas também e as convidando para refletir. A imagem em si provoca quem olha, com um dedo no rosto você se vê desafiado a pensar em suas atitudes. Quando em situações de racismo a primeira coisa que passava pela minha cabeça era “Será que essas pessoas conseguem dormir?”, para dormir, no mínimo você precisa ter uma mente tranquila para isso, “será que essas pessoas se sentiam bem ao ponto de dormir em paz?”. O processo começou com essa frase e a ideia de confronto. O que imageticamente poderia ser visto como um confronto? Quem gosta de ter um dedo no seu rosto, não é mesmo? Assim que eu terminei, mostrei para as meninas que curtiram muito o resultado, e com a minha ansiedade que não me deixa em paz, corri e fiz os adesivos, na sequência já fui pregando para ver as reações. Foi nesse contexto de identificação com essa arte que encontrei a interlocutora que vai salvar minha tese rsrs (isto é, risos tensos e esse assunto pode ficar para outra postagem).

Algumas pessoas se identificaram com os adesivos e na sequência com os lambes, mas também tivemos pessoas que descolaram e rasgaram as intervenções. Pode ter sido por várias motivações, mas prefiro acreditar que de alguma forma mexeu com essas pessoas. E é isso que eu espero quando saio na rua para pintar ou colar alguma coisa.

Interações.

Assim como a arte que desenvolvo individualmente, defini que abordaria temáticas que me envolvessem ou que me afetassem de alguma maneira, sabendo que são questões que atingem muitas pessoas também. Feminismo negro, ideias antirracistas, afetividades, imigrações e outras situações são aspectos que procurei abordar nas artes que produzi no coletivo, e espero que assim que a pandemia acabe possamos pensar em outras saídas e ideias de criação.

Artes que fiz desde a criação do coletivo.

Ser artista mulher exige pensar em várias estratégias de intervenção urbana para que assédios, agressões e os riscos que nos rodeiam sejam amenizados. Quando somada ao gênero, a raça faz multiplicar as chances de violência, assombrando nossa existência. Ser a única mulher negra no coletivo me coloca como bode expiatório ou como um alvo latente. Porém, acredito que não nos unimos à toa e que eu posso contar com elas quando algum tipo de abordagem racista for dirigida a mim. Afinal, este é o momento para que as ideias antirracistas saiam da cabeça e se tornem atitudes, é isso que se espera das aliadas  💛 .

Foto tirada por Leli Baldissera.

Que sejamos força, vozes, fonte de reflexão e de abrigo, mesmo que visual. Que falemos por nós e para nós, mas também para eles que tornam nossas vivências desafios constantes.

Informações gerais sobre as imagens e conteúdo:

  • Lambe lambe é uma técnica de intervenção urbana em que são feitas colagens em vias públicas de imagens, textos ou qualquer outro tipo de produção artística. A cola usada foi modificada pelo coletivo através da adição de 1/3 de água à cola branca. O pincel usado é chamado de broxa e pode ser encontrado em lojas de materiais de contrução, mas também pode se substituído por rolinho. A impressão ideal é a lase, mas milagrosamente encontramos uma gráfica em Porto Alegre que faz impressão em jato de tinta resistente a água. O papel usado é o sulfite 75g, mas pode ser usado o papel jornal ou papéis com baixa gramatura, o que facilita a colagem.
  • A ilustração inicialmente foi rascunhada com lápis, posteriormente coberta com marcador preto da marca Sharpie, na sequência digitalizada e modificada no Adobe Photoshop.
  • As ilustrações podem ser encontradas nos meus perfis no instagram @thay_petit , @casathaypetit e no @mulheriourbano .
  • Durante o texto incluo alguns links, mas vou repetí-los aqui: Leli Baldissera , Mulherio Ubano , Nítida e Freedas Crew .

Ilustração na academia: maneiras de existir

O desenho, inclusive na antropologia, tem sido usado muito antes da fotografia como uma maneira habilidosa de documentação imagética do que era vivido em campo. Existem cadernos de campo recheados por desenhos que trazem elementos importantes sobre interlocutores(as), incluindo artefatos, costumes, vestimentas, elementos de organização social e muitas outras possibilidades.

Sobre este assunto é possível encontrar vários textos que apontam para uma historicidade dessa prática na antropologia. Karina Kuschinir e Aina Azevedo são alguns nomes que dedicam suas escritas para este assunto. Karina amplia a discussão ao desenvolver suas reflexões em outros canais de comunicação, indo para além dos textos acadêmicos, sendo o seu blog um exemplo de linguagem que nos envolve, sempre atrelada a muitas ilustrações aquareladas.

Elas são minhas principais referências quando se trata do uso do desenho em pesquisas acadêmicas. Este blog, inclusive, pretensiosamente quer seguir um caminho próximo a essas referências. Sendo assim, gostaria de falar brevemente sobre as possibilidades de existências da ilustração no meio acadêmico.

Estou no sexto semestre do doutorado em antropologia social pelo Programa de Pós-Graduação da UFRGS. A minha pesquisa é sobre o pornobomb, uma pintura corporal com ligação direta ao graffiti. Podemos encontrar em vários lugares do Brasil e do mundo com denominações que variam, tais como a já mencionada pornobomb, bodypaint, bodygraffiti, bodyart, nudeart… entre outros que ainda não tive acesso. A pintura, geralmente, é realizada em corpos de mulheres, com a autoria de grafiteiros. É feito um registro fotográfico após a pintura, e frequentemente essas imagens são postadas nas redes sociais.

Ilustração feita a partir das primeiras explorações no campo de pesquisa. A tag do artista foi substituída pela palavra rua.

As relações entre fotografia e ilustração vislumbram a importância da imagem, que em diálogo com o texto tem a capacidade incrível de produzir teoria a partir de narrativas visuais. A pandemia interrompeu esse meu campo de pesquisa, mas me trouxe tempo para pensar nas possibilidades de inclusão da linguagem imagética na tese, através de ilustração e de quadrinhos.

Existem outras formas de existência para estes traços, casando a arte com o espaço acadêmico. Nesta quarentena, além das ilustrações de minha pesquisa, tive uma ilustração minha utilizada em uma proposta de dossiê para uma revista, por exemplo. A imagem não foi criada para este propósito, mas como eu era uma das organizadoras do dossiê pude utilizá-la como divulgação do próprio. Não é algo inédito, mas a maioria das chamadas dessa revista são compostas por fotografias. O nome do dossiê era “Imagens feministas ou feminismo em imagens”, da Revista Fotocronogafias. A ilustração cuja o nome é “Irmandade” traz a imagem de duas mulheres negras em volta de plantas (tajá e espadas de Iansã), que por meio do contato e do olhar tristonho dividem as angústias de serem mulheres negras, criando um laço, do tipo que a autora e pesquisadora Vilma Piedade chama de dororidade.

Ilustração Irmandade.

Além dessa chamada acidental, tive a oportunidade de elaborar duas ilustrações para divulgação de uma mesa e a outra para um dossiê. No primeiro caso se tratava de uma temática sobre o mundo do trabalho e mulheres. Resolvi retratar esse mundo sendo dominado por mulheres que trabalham incansavelmente para que ele funcione.

Evento: Trabajadoras y pandemia: Una mirada desde la antropologíaCiclo virtual: Los mundos del trabajo en Latinoamérica y la pandemia del Covid 19. Una mirada desde la antropología. Tercer encuentro: “Trabajadoras y pandemia”Evento: Trabajadoras y pandemia: Una mirada desde la antropología. Ocorreu no dia 24 de julho.

Já na segunda proposta, tem como base no título “Negras e indígenas epistemopolíticas e a antropologia brasileira” então busquei retratar uma mulher negra e uma que tenta representar a diversidade das mulheres  indígenas com semblantes de enfrentamento.

O dossiê está em fase de organização e ainda não foi divulgado para o púlbico acadêmico.

Em 2019, participei do artigo de um colega do doutorado com uma tirinha que tratava sobre os processos e as gestualidades do fazer graffiti.

Processo de criação de um graffiti, começando pela ideia, execução e finalização.

Na minha dissertação em antropologia, pesquisei um coletivo de graffiti de mulheres e um homem trans que grafitam na cidade de Belém. Inclusive, por conta desta pesquisa adentrei no graffiti e na ilustração e desde então nunca mais parei. Não só a capa, mas as divisões de capítulos e subtópicos (nas biografias das integrantes do coletivo de graffiti) são compostos por ilustrações. A capa foi desenvolvida a partir da minha experiência e vivência com essas artistas. Os subtópicos trazem ilustrações das próprias interlocutoras para compor suas biografias.

Como vocês já devem ter notado, esta postagem não está sendo nada cronológica e isso remete as lembranças que tento retomar sobre todas as oportunidades que tive na academia de mostrar a importância do desenho. Elas surgem um pouco bagunçadas.

Enquanto aluna negra e cotista na pós-graduação da UFRGS, participo do “Negra Coletividade” , que é o coletivo dos estudantes negras/negros do programa de pós-graduação em antropologia social. Me propus a fazer a identidade visual do grupo para a veiculação nas redes sociais. Foi muito interessante o processo de feitura dessa imagem, busquei referências nas múltiplas negritudes para trazer uma representatividade que abrangesse uma imagem de coletividade e de diversidade. A paleta escolhida possui cores quentes: amarelo, vermelho e laranja, para levar a lembrança de que precisamos ser chama onde quer que hajam pessoas racistas e que eles queimem com a nossa presença. Ao fundo, a presença do mapa do Brasil com uma singela ênfase no estado do Rio Grande do Sul, sinaliza que não existem só gaúchos pretos no programa. Pessoas se deslocam para alcançar seu sonhos, cursar uma pós-graduação é o sonho de muitos de nós, somos de todos os cantos: paraenses, cearenses, brasilienses, amapaenses… Além disso, trago o mapa do continente africano, com a ideia de abranger a diversidade de origem dos estudantes (há diversos alunos oriundos de países do continente), mas também para lembrar da nossa ancestralidade.

E por fim, dias antes desta postagem, terminei uma encomenda que me deixou muito feliz por ter tido a oportunidade de criá-la. Foi a capa de dissertação da Caroline Barroso mestranda em História (aqui da UFPA), que trata sobre a imagem de mulheres negras nos livros de história. O pedido era que eu ilustrasse as autoras com quem ela dialogava no texto interagindo com a própria pesquisadora, sua mãe e outras personagens. Essa ilustração, em especial, foi feita totalmente na mesa digitalizadora interativa da Huion. Foi uma experiência incrível.

Este texto vem justamente para dizer o quanto é possível incluir ilustrações em nossos fazeres acadêmicos. Uma artista-pesquisadora tem um leque de opções e de atuações para o desenvolvimento de sua pesquisa, tanto as de etapa: graduação, especialização, mestrado, doutorado, quanto para a pesquisa da vida inteira, que é a da arte.

Quem sabe em outra oportunidade eu possa refletir melhor sobre esses fazeres imagéticos.

*Os links dos trabalhos, encontros, coletivos e pessoas estão incluídos no texto.

Materiais utilizados ans ilustrações:

1- Caneta nanquim descartável da cor preta (Unipin) e aquarela da marca Sakura. A pintura foi digitalizada.

2- Aquarela da marca Sakura, caneta naquim descartável da cor preta (Unipin), lápis de cor aquarelável da FaberCastell.

3- Ilustração digital na mesa interativa da Huion Kamvas 16 pro;

4- Ilustração digital na mesa interativa da Huion Kamvas 16 pro;

5- Caneta nanquim descartável da cor preta (marca Unipin), digitalização e inclusão de imagem pronta no programa Adobe Photoshop;

6- Caneta nanquim descartável da cor preta (marca Unipin), digitalizado e letra incluída no Word;

7- Ilustração digital na mesa interativa da Huion Kamvas 16 pro utilizando o programa Adobe Illustrator;

8- Ilustração digital na mesa interativa da Huion Kamvas 16 pro utilizando o programa Adobe Photoshop;

Quem vê sorriso não vê angústia

Foto de perfil das minhas redes sociais. Registro de Hermes Veras.

Essa frase usei como legenda para esta foto quando postei no meu perfil no instagram (@thay_petit). “Quem vê sorriso não vê angústia” diz muita coisa quando constextualizada em uma pandemia. A quarentena iniciou, além de ter um caráter direto de redução do contágio do covid, veio com uma proposta mais íntima de autoconhecimentos e reinvenção. Só que no meio disso tudo ninguém lembrou do adoecimento ou das consequências de um isolamento – necessário, diga-se de passagem.

Esse blog foi recriado com o intuito de falar sobre as minhas ilustrações, o meu processo criativo e a relação que isso tudo tem com a minha pesquisa de doutorado, mas a ideia mágica de expor tudo isso esmureceu na medida que os dias passavam. Enfraqueceu não só a vontade de falar sobre esse assuntos, mas também a minha vontade revolucionária em escrever a minha pesquisa, dar andamento no que é necessário para que ela siga seu rumo reflexivo. E perceber isso todos os dias me deixou doente, frustrada, triste por saber da minha capacidade (ora, ora, cheguei tão longe!) e de não ter forças para seguir.

Hoje, depois de dois meses ou mais desde a primeira postagem, resolvi escrever. Quem sabe para dizer que não está sendo fácil, ou para encontrar outras pessoas na mesma condição e assim perceber que não estou só. Encontrar outras razões para continuar. Perceber que dessa vez não foi a frequente procrastinação, dessa vez foi diferente.

Em plena pandemia, antes de me ver doente, fiz muitas coisas. Consegui publicar dois artigos*, organizei junto com outras pesquisadoras maravilhosas um lindo dossiê** (posso falar sobre o número em outra postagem), fiz um curso de capacitação para mulheres artistas que me trouxe oxigênio (respirei), tentei fazer yoga e aula de afrofunk, assisti aula de como ilustrar com lápis de cor [risos] fiz tudo isso, mas depois que acabou cheguei a conclusão que apesar do tempo ter passado, ainda estávamos em quarentena, e as mortes só aumentavam, e os casos de racismo só aumentavam, e a violência gratuita piorava e o mundo se perdia. Isso tudo é muito triste!

Fiquei imóvel, não consegui ler durante meses, não escrevi uma linha durante muitos meses e os dias passavam muito rápido, lembrava só de uma segunda-feira começando e no dia seguinte já sendo sexta. E o que eu fiz a semana toda? Não sabia e ainda não sei, porque o tempo ainda está veloz.

No meio disso tudo a única coisa que ainda me fazia reagir era ilustrar e a vontade de deixar o que eu faço cada vez mais profissional no mundo da arte. A vontade de crescer fazendo o que eu amo. Ilustrar, pintar, fazer coisas. Sou uma fazedora de coisas! Criei um portfólio, um site, uma lojinha, fiz encomendas cada vez mais sérias, com orçamentos, com descrições e prazos. Gostei! Sinto que estou no caminho certo.

Mas e a qualificação? Não sei. Consegui escrever 28 folhas, incompletas, confusas, inconclusas, como os meus dias nessa quarentena. Quando me vejo nessas situações a vontade de desistir é grande, mas não posso. Eu não posso por mim, eu não posso pela minha mãe, eu não posso por ser negra (será menos uma de nós). Nessas horas escuto Baco Exu do Blues:

“Eles querem um preto com arma pra cima
Num clipe na favela gritando cocaína
Querem que nossa pele seja a pele do crime
Que Pantera Negra só seja um filme”

Eu não posso desistir, porque eles não nos querem lá, não nos querem nesses espaços e eu não vou facilitar, mesmo que seja dificil, mas quem disse que seria fácil?

Exu me salva muitas vezes. A arte me salva.

Referenciando:

*Artigos publicados citados:

Tavares Freitas, T. (2020). Mulheres e graffiti: experimentações etnográficas no coletivo “Freedas Crew”: Women and graffiti: ethnographic experiments in the collective “Freedas Crew”. Revista Caminhos Da Historia24(1), 58-81.

Tavares Freitas, T. (2020). Intercruzamento entre religiões de matriz africana e o graffiti: a decisão da entidade no ato de pintar o terreiro de Mina Nagô Deus Esteja Contigo. Ciencias Sociales Y Religión22, e020012.

**Dossiê organizado por Fabiene Gama, Leli Baldissera e por mim:

FREITAS, T. T.; BALDISSERA, M. (Org.) ; GAMA, F. (Org.) . Imagens Feministas ou Feminismos em Imagens. V.6. ed. Porto Alegre: Revista Fotocronografias, 2020. 203p

Ilustração: Rascunho feito com lápis em caderno de desenho, fotografado com celular. Pintura digital com mesa digitalizadora Wacon, usando o programa Photoshop.

Desafio Aline Daka ~ 1º dia de quarentena: A janela

Esta postagem faz referência a um exercício de quarentena proposto por Aline Daka, gaúcha, quadrinista, ilustradora e professora. Na postagem trago o texto que ela disponibilizou como base do exercício e na sequência tem a ilustração resultado do exercício e o texto de reflexão.

“TAREFA DE 30 DE MARÇO A 06 DE ABRIL
A tarefa consiste em começarmos nosso diário de quarentena. Um Start, um disparo,
um respiro e um suspiro. Somos desenhantes loucas pra desenhar, mas estamos muito
preocupadas com o que está acontecendo e muitas de nós, também trabalhamos muito.
O que devemos fazer agora é nos encontrar em meio à tanta dispersão. E então, a
pergunta é, AONDE EU POSSO ME ENCONTRAR? – DESENHE ESSA RESPOSTA E ESCREVA
EM POUCAS PALAVRAS ESSA EXPERIÊNCIA. Isto é, procure por si mesma nos objetos
pela casa, no espelho, nos livros, nas plantinhas, nas pessoas ao redor e pense, aonde
você está, aonde você se encontra com mais prazer, e amor, e verdade? Faça um
desenho desse lugar, ou coisa, ou de si mesma. Depois escreva como chegou até aí,
como foi esse processo de procura. O formato será feito como se fosse uma página de
diário. Esse é o dia 1º.
Beijos, se cuidem e vamos desenhar!
Aline Daka.”

Busquei pela casa, onde eu me encontrava, principalmente neste
momento de quarentena por conta do corona, razões que me levaram
a estar em determinado cômodo ou não. Pensei por algum tempo,
pois é um tempo confuso em que nem sabemos os dias da semana ou
como era a nossa rotina. Tudo parece tão incerto que perdemos o
nosso próprio acolhimento. Quando morei em Porto Alegre pela
primeira vez longe da minha mãe e tendo um lar para usufruir e
administrar junto ao meu companheiro, talvez eu soubesse
responder rapidamente, era outro momento e outro contexto.

Mas hoje, estando novamente na casa da minha mãe, tendo trocado várias vezes os
móveis do meu quarto de lugar para me sentir novamente em casa ou negociando com
ela a troca dos quartos, pois o meu tinha janela e o dela não, e isso me
preocupava, pois sem luz natural e sem circulação de ar não dá para ter uma vida
saudável. O que poderia ocorrer com a saúde dela? O que a falta de um buraco na
parede poderia me causar?


Para este reencontro comigo escolhi uma parte do novo quarto, a minha mesa de
trabalho e de estudos que muitas vezes nem está tão organizada como na aquarela,
inclusive quis trazer um pouco do caos que é a minha mesa, mas no fim, percebi o
quanto a ilustração evidenciou uma mesa ideal que ainda está nos meus sonhos,
juntamente aos tons pastéis e rosados que nem fazem parte do visual real do
ambiente e nem da minha paleta. O quarto como um todo é maior do que o meu antigo
quarto, mas a problemática da janela ainda me incomoda absurdamente. Em tempo de
corona essa falta me sufoca e muitas vezes a mesa querida que tanto organizei
para desorganizar deixou de ser o meu xodó e virou o segundo espaço preferido.
Corri para a mesa de jantar que está temporariamente na sala de estar que fica
próximo de uma janela.


Enquanto eu estava em Porto Alegre a janela também era um problema. Não pela
falta, mas pela localização que não deixava com que a luz do sol entrasse e em
tempos de inverno a luz natural era cinzenta e pouco animadora.
Porém a minha mesa sem janela atual ainda é o espaço que eu me vejo. Minhas
criações, livros, materiais artísticos, papéis, lápis de cores e canetinhas,
cores. As cores me fazem criar e é lá que eu vou esperar o corona sumir em
segurança. Quem sabe abrir uma janela nos primeiros dias pós quarentena.

Texto escrito em 06 de abril de 2020.

[1] Exercício proposto pela ilustradora, quadrinista e professora Aline Daka.

[2] O texto não se refere exatamente ao primeiro dia de quarentena.

[3] Materiais: Pintura em aquarela da marca Pestilento. Ilustração editada no Photoshop.

Voltei!!

Mais uma vez personalizo um blog para expor pensamentos e desta vez também ilustrações.

Na década de 2000 tive o “Sentimento Ilustrado” que reuniu por um tempo considerável poesias e contos autorais. Uma época em que vivia em volta de livros de literatura e tinha motivação suficientes para escrever e cheguei até a participar de uma ontologia com uma poesia e um conto fantástico.

Já na segunda tentativa, tentei fazer um blog “diário de campo”, aos moldes da professora Glória Diógenes (antropóloga cearense), que tem o seu blog chamado “Antropologizzzando”. A ideia era trazer reflexões sobre a etnografia que eu estava realizando no mestrado, trazendo para o blog elaborações teóricas e desenhísticas. O “Arriscando no risco” durou pouco tempo, devido a necessidade de atenção que ele exigia.

Agora na minha terceira tentativa, volto a pensar nesta relação entre antropologia, ilustrações e vida. Aos moldes de outra professora incrível da antropologia, referência na área da Antropologia do desenho: Karina Kuschnir . A ideia é reunir tudo isso dentro do contexto caótico que estamos vivendo por conta da pandemia por conta da Covid-19 e da corja que está no nosso governo.

Sendo assim, aqui você vai encontrar um compilado de ilustrações, materiais que eu uso, reflexões que variam entre cotidiano e questões do meu campo de pesquisa, agora no doutorado, pensamentos dentro da quarentena e outras ideias. É mais uma ferramenta de desligamento, amenizando aflições e angústias.

Espero que de alguma forma as minhas postagens e ilustrações te alcancem.

Abraços e saúde!

Thay Petit

Em casa reunida de amor.

Materiais: Aquarela bisnaga Pentel; caneta preta ponta fina Unipin. Arte digitalizada e editada no photoshop.